Rolando Bonaccorsi

Grandes voltas se decidem longe das montanhas

Leon Vardssen
Por Leon Vardssen

Quando se observa uma grande volta de três semanas, a montanha domina a atenção do público, recorte observado por Rolando Bonaccorsi, Diretor de Operações da Vert Analytics e ciclista de estrada. As imagens que sobram na memória são as de ataques em subidas íngremes, com diferenças construídas em poucos quilômetros de subida. A classificação final, porém, costuma se formar em etapas bem menos fotogênicas, longe do alto das montanhas.

Tour de France, Giro e Vuelta somam mais de vinte etapas e cerca de três mil quilômetros. A maior parte desse percurso não tem montanha, e é justamente nela que equipes gastam energia para proteger o líder, posicionar o pelotão e evitar o erro que custa minutos. O espectador acompanha a subida, enquanto boa parte da prova se decide nos dias que a antecedem.

O que acontece nas etapas planas?

Dia plano raramente é dia tranquilo para quem disputa a classificação geral. Vento lateral quebra o pelotão em grupos, e um ciclista mal posicionado, quando a estrada vira, pode perder dois minutos sem que ninguém tenha atacado de verdade. O prejuízo nasce de atenção, não de pernas. Na avaliação de Rolando Bonaccorsi, perder tempo por descuido pesa mais do que perder por inferioridade na montanha, porque a diferença vem sem contrapartida.

A disputa por posição consome força de forma invisível. Manter o líder nas dez primeiras colocações do pelotão durante seis horas exige trabalho constante de quatro ou cinco companheiros, que chegam ao fim da etapa com desgaste alto e precisam repetir a tarefa no dia seguinte. A conta aparece na terceira semana, quando o time de apoio já não consegue sustentar o mesmo ritmo de proteção.

Contrarrelógio e a diferença que o cronômetro cria

Etapas individuais contra o relógio costumam produzir as maiores diferenças de toda a prova. Um especialista pode tirar mais de um minuto de um escalador puro em quarenta quilômetros, margem que a montanha nem sempre devolve nas etapas seguintes. A disputa muda de natureza porque cada um corre contra o relógio, sem o abrigo do pelotão. O desenho do percurso define, portanto, qual perfil de ciclista tem vantagem antes mesmo da largada da primeira etapa.

A leitura muda conforme a quilometragem de contrarrelógio do ano. Como salienta Rolando Bonaccorsi, provas com dois testes longos tendem a favorecer ciclistas completos, enquanto edições com poucos quilômetros contra o relógio abrem espaço para escaladores que dependem de ataques repetidos para construir vantagem. O calendário de cada edição altera o favoritismo antes da prova começar.

Desgaste acumulado e trabalho de equipe

Três semanas de prova transformam a recuperação em variável decisiva. Conforme informa Rolando Bonaccorsi, o ciclista que dorme melhor, se alimenta com rigor e evita esforços desnecessários chega à última semana com condições que o treinamento sozinho não garante, porque o acúmulo de fadiga responde tanto à rotina quanto à carga imposta pelo percurso.

Equipes fortes compram tempo com organização. Proteger o líder do vento, entregar garrafas, posicionar o grupo antes de trechos estreitos e controlar fugas sem queimar todos os companheiros no mesmo dia são tarefas que não aparecem no resumo da etapa nem nos melhores momentos da transmissão. O efeito combinado costuma valer mais que um ataque isolado bem-sucedido, ainda que renda menos imagem na transmissão.

Leitura tática que o espectador não vê

Fugas são tratadas com cálculo, não com emoção. A equipe do líder decide quanto tempo pode conceder a um grupo à frente com base na classificação de cada ciclista que o compõe, liberando quem não ameaça a liderança e perseguindo quem aparece perto na classificação geral. A decisão é tomada em minutos, pelo rádio, e define o desenho inteiro do dia.

Acompanhar uma grande volta por esse ângulo muda a experiência de quem assiste. No panorama traçado por Rolando Bonaccorsi, a etapa plana deixa de ser intervalo entre montanhas e passa a ser a parte do roteiro em que a prova se organiza, com decisões silenciosas que a tabela de tempos registra apenas no fim da semana.

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