Projeto que equipara misoginia ao crime de racismo fica travado na Câmara: o que o impasse revela sobre o futuro da proteção às mulheres no Brasil

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez

Proposta era considerada uma das prioridades da pauta de direitos das mulheres, mas terminou julho sem votação em Plenário, adiando mudanças na legislação brasileira.

A expectativa de que a Câmara dos Deputados votasse ainda em julho o Projeto de Lei 896/2023, que equipara a misoginia ao crime de racismo, não se concretizou. Embora a proposta tenha recebido regime de urgência no início do mês e fosse apontada como uma das prioridades da bancada feminina, o texto terminou o período entre 27 e 30 de julho sem ser levado ao Plenário, permanecendo travado por falta de consenso entre os partidos. (camara.leg.br)

O adiamento frustrou parlamentares e entidades de defesa dos direitos das mulheres, que defendiam a aprovação antes do recesso legislativo. A proposta ganhou relevância diante do aumento das discussões sobre violência de gênero, discursos de ódio nas redes sociais e ataques direcionados às mulheres em ambientes físicos e digitais. Para os defensores do projeto, a legislação atual ainda apresenta lacunas para combater esse tipo de violência de maneira específica. (Senado Federal)

Mais do que um impasse legislativo, o episódio reacendeu um debate importante sobre a capacidade do Congresso Nacional de responder rapidamente às transformações sociais. Em um cenário marcado pela expansão das redes sociais, da inteligência artificial e da circulação acelerada de conteúdos de ódio, especialistas afirmam que o atraso na votação evidencia os desafios do Brasil para atualizar seu arcabouço jurídico diante de novas formas de violência.

O que previa o projeto e por que ele ganhou tanta repercussão?

O Projeto de Lei 896/2023 foi aprovado pelo Senado Federal e enviado à Câmara dos Deputados com o objetivo de incluir a misoginia entre os crimes previstos na Lei do Racismo. A proposta define misoginia como práticas de ódio, discriminação ou violência motivadas pela condição de ser mulher e prevê penas semelhantes às aplicadas aos crimes de racismo, tornando essas condutas inafiançáveis e imprescritíveis. Também estabelece agravantes para determinados crimes cometidos contra mulheres e amplia mecanismos de responsabilização para discursos de ódio, inclusive quando praticados por meio digital. (camara.leg.br)

No dia 1º de julho, a Câmara aprovou o regime de urgência da proposta, acelerando sua tramitação e permitindo que ela fosse levada diretamente ao Plenário. Na ocasião, o presidente da Casa afirmou que seria necessário construir um texto de consenso entre as diferentes bancadas antes da votação definitiva. A expectativa era que esse acordo fosse concluído ainda antes do recesso parlamentar. (camara.leg.br)

Entretanto, ao longo do mês surgiram divergências sobre alguns dispositivos do projeto. Parlamentares favoráveis defenderam que a proposta representa um avanço na proteção das mulheres diante do crescimento da violência motivada por gênero. Já críticos manifestaram preocupação com possíveis impactos sobre a liberdade de expressão e solicitaram alterações na redação antes da votação. A falta de entendimento político fez com que o projeto permanecesse fora da pauta até o encerramento dos trabalhos legislativos do período. (Folha de S.Paulo)

Por que o projeto perdeu força antes da votação?

O principal motivo foi a dificuldade em reunir apoio suficiente para um texto considerado sensível e de forte repercussão política. Embora houvesse maioria para aprovar o regime de urgência, a votação do mérito exigia negociações adicionais entre governo, oposição e bancadas temáticas, especialmente em um contexto de agenda legislativa carregada e aproximação do calendário eleitoral. (camara.leg.br)

Outro fator relevante foi a prioridade dada a outras matérias consideradas urgentes pelo Congresso durante o mês de julho. Com o avanço do recesso parlamentar, diversas propostas acabaram sendo adiadas para o segundo semestre, incluindo projetos ligados à pauta de direitos humanos e segurança pública. Assim, mesmo sendo considerada importante por diferentes setores da sociedade, a criminalização da misoginia deixou de ser votada dentro do prazo esperado. (Senado Federal)

Na prática, o projeto não foi rejeitado nem arquivado. Ele continua em tramitação na Câmara dos Deputados e poderá voltar à pauta quando houver acordo entre os líderes partidários. Até lá, permanece válida a legislação atual, que pune diferentes formas de violência contra a mulher por meio de leis específicas, como a Lei Maria da Penha e a legislação sobre feminicídio, mas ainda sem uma tipificação própria para a misoginia nos termos propostos pelo PL 896/2023. (camara.leg.br)

O que esse impasse revela sobre o futuro da legislação brasileira?

O caso mostra que aprovar leis em temas de grande impacto social depende não apenas do mérito da proposta, mas também da capacidade de construir consensos políticos. Em um Congresso cada vez mais fragmentado, projetos relacionados a direitos, liberdade de expressão e ambiente digital costumam enfrentar negociações prolongadas antes de chegarem ao Plenário.

Ao mesmo tempo, especialistas observam que a evolução das plataformas digitais e das tecnologias de inteligência artificial amplia os desafios para o combate à violência baseada em gênero. Ferramentas capazes de produzir conteúdos falsos, imagens manipuladas e campanhas coordenadas de ataques virtuais aumentam a pressão para que a legislação acompanhe as mudanças tecnológicas e ofereça respostas mais rápidas às novas formas de violência.

Independentemente do momento em que o projeto voltar à pauta, o debate deverá permanecer relevante. A discussão sobre a criminalização da misoginia ultrapassa a esfera jurídica e envolve temas como proteção de direitos fundamentais, regulação das plataformas digitais, segurança das mulheres e os limites entre liberdade de expressão e discursos de ódio. O impasse registrado no fim de julho evidencia que o desafio do Brasil não está apenas em criar novas leis, mas em construir consensos capazes de transformar demandas sociais em políticas públicas efetivas e adaptadas às mudanças do século XXI.

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