Pedro Daniel Magalhães

Descomplicando o crédito: a ascensão do crédito estruturado no mercado brasileiro

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez

Pedro Daniel Magalhães, empresário com atuação em crédito estruturado e mercado financeiro, integra um debate que ganha relevância crescente entre gestores, investidores e empresários: a transformação profunda que vem ocorrendo nas fontes de financiamento disponíveis para as empresas brasileiras. O crédito estruturado, que por muito tempo foi tratado como alternativa sofisticada reservada a grandes operações corporativas, expandiu seu alcance de forma expressiva nas últimas duas décadas. Compreender essa trajetória é entender uma das mudanças mais significativas da arquitetura financeira do país.

O mercado financeiro brasileiro opera, hoje, com uma diversidade de instrumentos que não existia uma geração atrás. Fundos de recebíveis, certificados de crédito privado, plataformas de securitização e estruturas customizadas de financiamento convivem com o crédito bancário tradicional, criando um ecossistema mais plural e, em muitos aspectos, mais eficiente na alocação de recursos. Esse movimento não foi linear nem uniforme, mas seu resultado acumulado representa uma mudança qualitativa nas opções disponíveis para empresas de diferentes portes e setores.

Leia a seguir como essa expansão vem se desenvolvendo e o que ela revela sobre a maturidade do mercado financeiro nacional.

Aproveitando ativos de qualidade: o diferencial do crédito estruturado em relação ao bancário

O crédito estruturado parte de um princípio diferente do crédito bancário convencional. Em vez de avaliar a empresa tomadora como um todo e conceder crédito com base na sua solidez geral, o crédito estruturado isola ativos específicos, como recebíveis, contratos futuros ou fluxos de caixa projetados, e os utiliza como base para a operação. Pedro Magalhães esclarece que esse mecanismo permite que empresas com histórico financeiro limitado ou com ativos de qualidade superior à percepção geral do seu balanço acessem recursos em condições mais favoráveis do que obteriam pelo canal bancário tradicional.

A separação entre o risco do ativo e o risco da empresa é a chave que explica a versatilidade do crédito estruturado. Uma companhia com balanço pressionado, mas com uma carteira de recebíveis de boa qualidade e baixa inadimplência histórica, pode securitizar esses ativos e captar recursos a um custo que reflete a qualidade da carteira, e não a situação geral da empresa. Essa lógica abre possibilidades que o modelo tradicional de análise de crédito simplesmente não consegue capturar.

Securitização coletiva permite que pequenas empresas acessem o mercado de recebíveis 

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios foram, durante muito tempo, o principal veículo de acesso ao crédito estruturado no Brasil. Criados para conectar empresas cedentes de recebíveis a investidores institucionais, os FIDCs desenvolveram uma presença expressiva em setores como varejo, saúde, educação e agronegócio, onde carteiras de recebíveis volumosas e diversificadas oferecem a base ideal para esse tipo de estrutura.

A evolução regulatória do segmento contribuiu para ampliar sua acessibilidade. À medida que as regras de funcionamento dos FIDCs foram se tornando mais claras e os custos de estruturação foram recuando com a maior concorrência entre prestadores de serviço, operações de menor porte passaram a se tornar viáveis. Plataformas de securitização que agregam carteiras de múltiplos cedentes menores criaram condições para que empresas que antes não atingiriam o volume mínimo necessário para uma operação individual pudessem acessar o mercado de recebíveis de forma coletiva.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Conforme examina Pedro Daniel Magalhães, a expansão dos FIDCs para segmentos de menor porte representa uma das transformações mais relevantes do mercado de crédito estruturado brasileiro. A capacidade de transformar recebíveis em liquidez sem depender exclusivamente do sistema bancário é especialmente valiosa em momentos de restrição de crédito, quando as empresas mais precisam de alternativas.

Por que a maior liquidez no mercado secundário de crédito privado é benéfica para os investidores?

O crescimento do crédito privado trouxe para o mercado de financiamento corporativo um conjunto de participantes que antes tinha presença muito mais limitada. Fundos de pensão, seguradoras, family offices e gestoras independentes passaram a alocar parcelas crescentes de seus portfólios em ativos de crédito privado, atraídos pela combinação entre retornos superiores à renda fixa convencional e estruturas de proteção mais sofisticadas do que as oferecidas pelos títulos de dívida corporativa tradicionais.

Essa entrada de capital institucional teve efeitos relevantes sobre o mercado. A base de demanda por emissões corporativas se tornou mais ampla e mais estável. O mercado secundário de ativos de crédito privado ganhou liquidez. As empresas emissoras passaram a ter acesso a um conjunto mais diverso de interlocutores, cada um com apetite e critérios distintos de avaliação. O resultado foi um mercado mais competitivo e, para as empresas com bom perfil financeiro, mais favorável em termos de custo e prazo.

Pedro Magalhães ressalta que a presença crescente dos investidores institucionais no mercado de crédito privado exerce um papel disciplinador sobre a qualidade das emissões. Gestoras com mandatos rigorosos de gestão de risco tendem a exigir padrões elevados de transparência e governança das empresas com as quais negociam, elevando o nível geral do mercado e beneficiando indiretamente todos os participantes.

Quais são os benefícios de se familiarizar com o crédito estruturado antes de precisar de financiamento?

Pedro Magalhães pontua que a trajetória do crédito estruturado no Brasil é um espelho do amadurecimento do mercado financeiro nacional. Mercados financeiros pouco desenvolvidos tendem a concentrar o financiamento corporativo no sistema bancário, com poucas alternativas disponíveis e custo do capital relativamente uniforme para todos os tomadores, independentemente da qualidade dos seus ativos. À medida que o mercado amadurece, os instrumentos se diversificam, a precificação do risco se torna mais granular e os recursos fluem com mais eficiência para onde a relação entre risco e retorno é mais favorável.

O estágio atual do mercado de crédito estruturado brasileiro sugere que esse processo de amadurecimento ainda está em curso, com espaço relevante de desenvolvimento, especialmente no segmento das médias empresas. A redução dos custos de estruturação, o avanço das plataformas digitais de originação e a maior familiaridade dos empresários com os instrumentos disponíveis são fatores que tendem a sustentar a expansão do segmento nos próximos ciclos.

Pedro Magalhães sinaliza que empresas que desenvolvem familiaridade com o universo do crédito estruturado antes de precisar dele constroem uma vantagem concreta na hora de acessar recursos em condições competitivas. Conhecer os instrumentos disponíveis, entender os requisitos de cada estrutura e ter um relacionamento prévio com os participantes do mercado são diferenciais que se traduzem em acesso mais rápido e mais barato quando a necessidade de captação surge.

 

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