Auditoria identificou problemas em estrutura sobre o riacho Desvio de Pedras, no oeste da Bahia, além de atraso considerado “crônico e progressivo” no trecho da Fiol entre Caetité e Barreiras; Infra S.A. contesta avaliação sobre falha estrutural e afirma que obra ainda está em fase intermediária.
Uma das principais obras ferroviárias em andamento na Bahia voltou ao centro das atenções após uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) identificar problemas considerados graves em uma ponte da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol). A estrutura fica sobre o riacho Desvio de Pedras, em São Félix do Coribe, e integra o trecho ferroviário que conecta Caetité a Barreiras. A vistoria técnica foi realizada em 17 de junho e os resultados vieram a público nesta semana. (Folha de S.Paulo)
O caso chama atenção não apenas pela situação encontrada na ponte, mas pelo histórico da própria obra. O lote analisado começou a ser construído em janeiro de 2011 e atravessou mudanças contratuais, atrasos e sucessivas revisões de cronograma. A previsão mais recente aponta para conclusão em dezembro de 2027, três anos depois do prazo previsto no contrato firmado em 2021 para finalizar parte do empreendimento. (Folha de S.Paulo)
Auditoria aponta risco na estrutura da ponte
Segundo as informações da auditoria divulgadas pela imprensa, os técnicos identificaram problemas na fundação da ponte sobre o riacho Desvio de Pedras. O relatório preliminar descreve um risco concreto e crescente de comprometimento estrutural, que poderia evoluir para colapso parcial ou total caso os problemas não sejam solucionados. (Folha de S.Paulo)
Durante a vistoria, os auditores também encontraram uma fenda no solo próxima à base da estrutura de concreto. A avaliação técnica relacionou o problema a processos de erosão e à instabilidade na região das cabeceiras da ponte, especialmente diante do comportamento do riacho durante períodos de cheia. (Folha de S.Paulo)
Projeto da ponte foi reduzido de 74,6 para 35 metros
Um dos pontos mais relevantes levantados pela auditoria envolve uma alteração significativa no projeto. A estrutura originalmente teria 74,6 metros de extensão, mas o projeto posteriormente adotado reduziu a ponte para aproximadamente 35 metros, uma diminuição superior a 50%. (Bahia Economica)
De acordo com a avaliação relatada, a solução original manteria as cabeceiras da ponte em terreno mais firme e distante do leito do riacho. Com a redução da estrutura, uma parcela maior do espaço passou a ser preenchida por aterro, aproximando as cabeceiras da região sujeita à ação da água. Os auditores apontaram que a manutenção dos 74,6 metros previstos inicialmente reduziria o estrangulamento da calha e os riscos relacionados aos taludes. (Folha de S.Paulo)
Infra S.A. contesta interpretação sobre falha estrutural
Responsável pela contratação e fiscalização do empreendimento, a Infra S.A., estatal vinculada ao Ministério dos Transportes, apresentou uma interpretação diferente. A empresa afirmou que as condições encontradas correspondem a uma etapa intermediária e provisória da construção e que o cenário observado não representa a configuração definitiva da ponte. (Folha de S.Paulo)
A estatal também sustentou que a movimentação identificada no aterro não seria resultado de falha estrutural, mas de uma frente de serviço ainda incompleta. Mesmo assim, informou ter determinado ao consórcio responsável pela execução a adoção de providências para corrigir o aterro até o final de agosto. (Folha de S.Paulo)
Em relação à redução do comprimento da ponte, a Infra S.A. afirmou que a alteração seguiu normas de engenharia e critérios hidrológicos validados. A estatal acrescentou que a mudança ocorreu dentro de uma contratação integrada e defendeu que o projeto atual está de acordo com as diretrizes aprovadas para o empreendimento. (Folha de S.Paulo)
Atrasos acompanham ferrovia há anos
Os problemas encontrados na ponte representam apenas uma parte das preocupações apresentadas na fiscalização. A auditoria também classificou o atraso no trecho como “crônico e progressivo”. O lote analisado possui aproximadamente 159 quilômetros e teve suas obras iniciadas em janeiro de 2011, inicialmente sob responsabilidade da antiga Valec. (Folha de S.Paulo)
Dez anos depois, quando o primeiro contrato foi rescindido, apenas cerca de 14% do trecho estava concluído. Em 2021, a Infra S.A. realizou nova licitação para terminar aproximadamente 132 quilômetros restantes. O Consórcio TT-Fiol venceu a disputa e assinou contrato de aproximadamente R$ 500,2 milhões, com prazo de 36 meses para concluir os serviços. (Folha de S.Paulo)
Prazo de 2024 virou 2026 e agora chega a 2027
Pelo contrato firmado em 2021, a conclusão deveria ocorrer em dezembro de 2024. O prazo não foi cumprido e acabou prorrogado para dezembro de 2026. Posteriormente, um novo acordo passou a trabalhar com a perspectiva de entrega em dezembro de 2027. (Folha de S.Paulo)
A dimensão do atraso aparece também na execução financeira. Segundo os dados da auditoria divulgados pela Folha de S.Paulo, em janeiro de 2026 cerca de 49% do valor da obra havia sido executado, enquanto a previsão era de 72,46%. Já a implantação da estrutura ferroviária, incluindo trilhos, teria alcançado apenas 14% do trecho analisado. (Folha de S.Paulo)
Situação financeira de construtora preocupa TCU
Outro elemento apontado pela fiscalização é a situação da Tiisa Infraestrutura e Investimentos, uma das empresas integrantes do Consórcio TT-Fiol, ao lado da TCE Engenharia. A Tiisa encontra-se em recuperação judicial, circunstância mencionada pelo TCU como fator capaz de afetar a capacidade financeira e operacional do consórcio responsável pelas obras. (Folha de S.Paulo)
A situação chegou a levar a Infra S.A. a preparar uma rescisão unilateral do contrato, acompanhada de multa de aproximadamente R$ 61,3 milhões e acionamento das garantias contratuais. A ruptura, entretanto, não foi efetivada.
Acordo mantém consórcio responsável pela construção
Em 18 de junho, um dia depois da vistoria realizada pelos técnicos do TCU, a Infra S.A. firmou um Compromisso de Ajustamento de Conduta (CAC) com o consórcio. O acordo manteve as empresas responsáveis pela execução e estabeleceu um novo cronograma, levando o horizonte de conclusão para dezembro de 2027. (Folha de S.Paulo)
A opção por manter o contrato também possui uma justificativa operacional. Uma eventual rescisão exigiria desmobilizar a estrutura existente, realizar outra licitação e contratar uma nova empresa, criando o risco de prolongar ainda mais a paralisação de uma obra já parcialmente executada. Por outro lado, a auditoria alerta que permanece o risco de o novo prazo também não ser cumprido diante do volume de serviços ainda pendentes. (Folha de S.Paulo)
Relatório ainda é preliminar
É importante destacar que as conclusões divulgadas fazem parte de uma fiscalização preliminar. A Infra S.A. ressaltou que o documento da unidade técnica do TCU possui natureza de trabalho e não representa, por si só, uma decisão definitiva ou vinculante do Tribunal. (Folha de S.Paulo)
Essa diferença é relevante para a interpretação do caso. Há uma avaliação técnica apontando riscos significativos que precisam ser tratados, enquanto a estatal responsável pela obra contesta que exista uma falha estrutural definitiva e afirma que parte das condições encontradas decorre do estágio ainda incompleto da construção.
Fiol permanece estratégica para a infraestrutura brasileira
A Ferrovia de Integração Oeste-Leste é um dos grandes projetos destinados a ampliar a infraestrutura logística da Bahia e conectar regiões produtoras a corredores de exportação. Por essa razão, sucessivos atrasos elevam custos e adiam os benefícios econômicos esperados com a implantação da ferrovia.
Depois de aproximadamente 15 anos desde o início das obras no lote analisado, a nova previsão coloca dezembro de 2027 como horizonte para conclusão. O cumprimento desse calendário dependerá do avanço físico dos serviços, da capacidade operacional das empresas contratadas e das correções dos problemas apontados durante a fiscalização.
Auditoria aumenta pressão sobre execução da obra
A situação da ponte sobre o riacho Desvio de Pedras adiciona agora uma preocupação estrutural aos problemas de cronograma. A Infra S.A. afirma que medidas corretivas estão sendo adotadas e defende tecnicamente as mudanças realizadas no projeto. O TCU, por outro lado, identificou indícios que considera suficientemente relevantes para exigir atenção e acompanhamento. (Folha de S.Paulo)
O caso transforma a Fiol novamente em exemplo dos desafios enfrentados por grandes projetos brasileiros de infraestrutura: contratos de longa duração, alterações de projeto, dificuldades financeiras das empresas executoras e cronogramas sucessivamente prorrogados. A evolução das intervenções na ponte e o ritmo das obras até dezembro de 2027 deverão mostrar se o novo planejamento conseguirá finalmente retirar esse trecho da ferrovia de um histórico de atrasos.
Fontes
Folha de S.Paulo — reportagem de 25 de agosto de 2026 com detalhes da auditoria, informações sobre a ponte, contratos, cronograma e posicionamento da Infra S.A. (Folha de S.Paulo)
Bahia Notícias — cobertura sobre a fiscalização e os atrasos do trecho da Fiol 2. (Bahia Notícias)
Bahia Econômica — informações sobre a redução da ponte e os riscos apontados na auditoria. (Bahia Economica)
Folha de S.Paulo — Auditoria do TCU aponta risco de colapso e atrasos na Fiol
Bahia Notícias — Auditoria aponta risco em ponte da Fiol 2
Bahia Econômica — Ponte da Fiol tem estrutura reduzida e TCU aponta risco