Plano da Meta para substituir parte do trabalho humano por IA fracassa e empresa recua

Leon Vardssen
Por Leon Vardssen

Project OT previa equipes até 60% menores e agentes de inteligência artificial realizando atividades antes executadas por funcionários, mas resistência interna, problemas técnicos e ganhos de produtividade abaixo do esperado levaram a Meta a cancelar uma segunda etapa da reorganização.

A Meta iniciou 2026 com um dos projetos mais ambiciosos já conhecidos para transformar uma grande empresa de tecnologia em uma organização baseada em inteligência artificial. Batizado internamente de Project OT, abreviação de Organization Transformation, o plano imaginava uma estrutura na qual agentes de IA assumiriam parte significativa das tarefas diárias realizadas por milhares de funcionários, enquanto grupos menores de profissionais humanos supervisionariam os sistemas automatizados. A estratégia, porém, encontrou obstáculos importantes e acabou sendo parcialmente abandonada.

Uma investigação da Reuters publicada em 26 de agosto, baseada em documentos internos e entrevistas com mais de 20 pessoas com conhecimento das operações da companhia, revelou que a Meta chegou a estudar cenários nos quais algumas equipes poderiam ser reduzidas em até 60%. A empresa confirmou a existência do projeto, mas ressaltou que esse percentual não representava um plano para eliminar 60% de toda a sua força de trabalho e que nem todos os cenários analisados seriam necessariamente implementados.

Meta queria se tornar uma empresa “AI-native”

A ideia começou a ganhar forma no início de 2026. O objetivo era transformar a estrutura tradicional da companhia em um modelo considerado internamente “AI-native”. Nesse ambiente, ferramentas e agentes de inteligência artificial seriam incorporados desde o início aos processos de trabalho, automatizando tarefas e permitindo que grupos menores de profissionais realizassem atividades que anteriormente exigiam equipes maiores.

Um dos modelos avaliados previa pequenos grupos, chamados de “pods”, formados por poucos funcionários altamente produtivos. Em vez de grandes estruturas hierárquicas, esses profissionais trabalhariam diretamente com ferramentas automatizadas e agentes de IA. A expectativa era aumentar a produtividade, reduzir custos e eliminar parte das camadas tradicionais de gestão.

Equipes poderiam encolher até 60%

Os cenários mais agressivos avaliados pelo Project OT consideravam reduções de até 60% em determinadas equipes. Parte dos funcionários poderia ser transferida para outras áreas consideradas prioritárias, enquanto outros cargos poderiam ser eliminados.

A Meta afirmou à Reuters que o exercício envolvia diferentes possibilidades, incluindo realocação de profissionais, fechamento de vagas abertas e cortes. A companhia também declarou que milhares de funcionários acabaram transferidos para novas equipes consideradas estratégicas, incluindo grupos responsáveis pela produção e preparação de dados utilizados no treinamento de modelos de inteligência artificial.

A redução de 60%, portanto, não significava eliminar essa parcela de todos os empregos da Meta. Tratava-se do cenário mais profundo analisado para determinadas unidades durante o planejamento da transformação organizacional.

Primeira rodada de cortes aconteceu em maio

O Project OT previa duas grandes etapas. A primeira avançou em maio, quando a Meta realizou uma redução de aproximadamente 10% de sua força de trabalho, equivalente a cerca de 8 mil funcionários.

A reorganização fazia parte de um movimento maior para concentrar recursos em inteligência artificial e construir equipes consideradas mais produtivas. Profissionais também foram transferidos para novas funções, enquanto a companhia reorganizava áreas de engenharia, pesquisa e desenvolvimento.

O plano, entretanto, começou a encontrar resistência dentro da própria empresa.

Funcionários reagiram à possibilidade de substituição

Um dos principais problemas foi a reação dos trabalhadores. A perspectiva de utilizar inteligência artificial para assumir tarefas realizadas por pessoas provocou insegurança e deterioração do ambiente interno.

Parte dos funcionários interpretou determinadas atividades relacionadas ao treinamento dos modelos como um processo no qual trabalhadores humanos estariam ajudando a desenvolver as próprias tecnologias que poderiam posteriormente substituí-los.

Também surgiram reclamações relacionadas à maneira como a reorganização estava sendo conduzida. Alguns profissionais foram deslocados para novas funções e equipes sem clareza suficiente sobre responsabilidades, estrutura de liderança ou perspectivas futuras dentro da companhia.

Inteligência artificial não entregou produtividade esperada

A tecnologia também apresentou limitações importantes. A Meta esperava que agentes de IA permitissem equipes significativamente menores sem comprometer a capacidade de desenvolvimento. Dados internos, porém, indicaram uma realidade mais complexa.

Segundo informações internas reveladas pela investigação, mudanças de código realizadas nas plataformas e infraestruturas utilizadas pelos funcionários cresceram fortemente. Em determinado indicador, houve avanço de aproximadamente 220% na quantidade de alterações de código em comparação com o ano anterior.

O aumento na quantidade de código produzido, entretanto, não se converteu na mesma proporção em novos recursos disponibilizados aos usuários. As mudanças que efetivamente resultaram em funcionalidades novas ou aprimoradas teriam avançado apenas 36%.

A diferença colocou em dúvida uma das premissas centrais do projeto: produzir muito mais código não significava necessariamente gerar proporcionalmente mais produtos úteis.

Agentes de IA também provocaram problemas técnicos

Outro ponto preocupante envolveu a confiabilidade dos agentes automatizados. Informações internas citadas pela Reuters indicaram que sistemas de IA realizaram ações de grande escala que funcionários humanos dificilmente executariam da mesma maneira.

O problema teve consequências operacionais. Dados internos indicaram crescimento de 40% nos grandes incidentes técnicos e de segurança em comparação com o ano anterior. O tempo utilizado pelos funcionários para resolver esses problemas teria aumentado em até 70%.

Esses indicadores mostraram uma contradição importante: ferramentas concebidas para economizar trabalho humano também estavam criando novas demandas para os próprios funcionários responsáveis por supervisionar e corrigir suas ações.

Zuckerberg reconheceu que avanço ficou abaixo da expectativa

As dificuldades chegaram ao comando da companhia. Em julho, Mark Zuckerberg reconheceu internamente que o desenvolvimento dos agentes de inteligência artificial não havia acelerado da maneira esperada nos meses anteriores.

Essa avaliação ganhou importância porque a transformação organizacional dependia justamente da capacidade dessas ferramentas de assumir tarefas de forma suficientemente confiável para permitir estruturas humanas muito menores.

Sem os ganhos esperados, uma redução profunda das equipes poderia gerar gargalos, aumentar riscos e comprometer o funcionamento das operações.

Segunda etapa de cortes foi cancelada

A Meta acabou desistindo da segunda grande rodada prevista pelo Project OT. A companhia confirmou que não colocou em prática todos os cenários considerados durante o planejamento e que os planos para a segunda fase foram cancelados antes que fosse definido exatamente quantos trabalhadores seriam afetados.

A Reuters não conseguiu determinar um único fator responsável pela mudança de direção. O conjunto de dificuldades, entretanto, incluiu resistência dos funcionários, problemas de organização das novas equipes e dúvidas sobre a capacidade das ferramentas de IA de produzir os ganhos inicialmente imaginados.

O recuo não significa que a Meta tenha abandonado a inteligência artificial. Pelo contrário: a tecnologia continua ocupando posição central na estratégia da empresa. O que mudou foi a velocidade e a forma como a automação poderia substituir determinadas estruturas humanas.

Meta continua gastando bilhões em inteligência artificial

Mesmo após os problemas do Project OT, a companhia mantém investimentos gigantescos no setor. A Meta trabalha com uma conta superior a US$ 130 bilhões relacionada à infraestrutura de IA, enquanto disputa pesquisadores, engenheiros e especialistas com outras grandes empresas de tecnologia.

A estratégia demonstra que o fracasso parcial do projeto de reorganização não representa uma desistência da inteligência artificial. A empresa continua apostando que agentes e modelos mais avançados poderão aumentar a produtividade e transformar a maneira como seus produtos são desenvolvidos.

A experiência de 2026, entretanto, mostrou que existe uma diferença significativa entre utilizar IA como ferramenta de apoio e reorganizar uma companhia inteira partindo da expectativa de que sistemas automatizados conseguirão substituir rapidamente grandes volumes de trabalho humano.

Caso Meta vira alerta para outras empresas

O Project OT pode se tornar um importante estudo de caso sobre os limites atuais da inteligência artificial no ambiente corporativo. Empresas de diferentes setores estão tentando descobrir se agentes autônomos conseguem executar tarefas administrativas, produzir software, analisar documentos e automatizar processos tradicionalmente realizados por trabalhadores.

O caso da Meta mostra que medir o sucesso apenas pela quantidade de tarefas produzidas pode gerar uma interpretação incompleta. Uma ferramenta capaz de criar mais código, por exemplo, não necessariamente produz mais funcionalidades úteis se o trabalho adicional exigir revisão humana, provocar erros ou aumentar incidentes.

Outro desafio está na própria organização das empresas. Reduzir equipes antes que as ferramentas automatizadas estejam suficientemente maduras pode aumentar a carga de trabalho dos profissionais restantes e criar problemas de gestão que anulam parte da economia pretendida.

Projeto mostra limites da substituição rápida de trabalhadores por IA

A experiência também enfraquece a ideia de que agentes de inteligência artificial já estejam prontos para substituir de maneira ampla equipes inteiras em grandes empresas. Mesmo uma companhia com enorme capacidade financeira, infraestrutura computacional própria e alguns dos principais especialistas em IA do mundo encontrou dificuldades para executar uma transformação dessa dimensão.

Isso não significa que empregos não serão modificados pela tecnologia. A própria Meta continua reorganizando funções e utilizando IA para aumentar a produtividade. A diferença é que a substituição direta e acelerada demonstrou ser mais complexa do que os cenários mais agressivos inicialmente avaliados.

Meta muda discurso sobre futuro do trabalho

Depois das dificuldades enfrentadas, o discurso público da empresa passou a enfatizar mais a capacidade da inteligência artificial de ampliar o trabalho das pessoas, em vez de simplesmente substituir funcionários.

A mudança é significativa. No início do Project OT, a Meta estudava uma estrutura em que milhares de tarefas seriam transferidas para trabalhadores virtuais supervisionados por pequenos grupos humanos. Depois dos resultados encontrados durante 2026, a companhia passou a adotar uma visão mais cautelosa sobre a velocidade dessa transição.

O episódio não encerra a transformação provocada pela IA dentro da Meta. Mas mostra que a passagem de uma empresa tradicional para uma organização verdadeiramente “AI-native” envolve muito mais do que instalar ferramentas generativas e diminuir equipes.

Um dos maiores testes corporativos da IA encontra seus limites

O Project OT começou como uma tentativa radical de mostrar como poderia funcionar uma grande empresa tecnológica com menos funcionários e muito mais agentes de inteligência artificial. Meses depois, a realidade demonstrou que produtividade, confiabilidade, segurança e gestão humana continuam sendo obstáculos importantes.

A Meta realizou cortes e reorganizou equipes, mas cancelou a segunda etapa prevista pelo projeto. Ao mesmo tempo, os agentes de IA não conseguiram demonstrar de forma consistente os ganhos necessários para justificar a transformação na escala inicialmente considerada.

O resultado transforma o caso em um alerta para empresas que pretendem acelerar a substituição de trabalho humano por sistemas automatizados. A inteligência artificial pode produzir enormes ganhos em determinadas atividades, mas a experiência da Meta mostra que mais automação não significa automaticamente mais produtividade — e reduzir pessoas antes de comprovar essa eficiência pode criar novos problemas em vez de resolvê-los.

Fontes:

Reuters — investigação completa sobre o Project OT

Reuters — como o plano de transformação da força de trabalho deu errado

Ars Technica — problemas técnicos dos agentes de IA da Meta

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