Trem que liga a CPTM ao Aeroporto de Guarulhos acumula mais de dois anos de atraso

Leon Vardssen
Por Leon Vardssen

Sistema que deveria conectar a estação da CPTM aos terminais do Aeroporto de Guarulhos tinha prazo original para fevereiro de 2024.

O projeto que pretende conectar diretamente a Linha 13-Jade da CPTM aos três terminais do Aeroporto Internacional de Guarulhos continua enfrentando atrasos e problemas técnicos. O sistema, conhecido como Automated People Mover (APM), deveria ter sido concluído em fevereiro de 2024, mas mais de dois anos depois ainda não opera em sua capacidade prevista. Em fiscalização divulgada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em maio de 2026, o órgão apontou que o sistema permanecia em estágio inicial de operação, de forma assistida e com restrições. A situação transformou uma obra planejada para facilitar a chegada de passageiros ao aeroporto em um projeto que continua sob acompanhamento dos órgãos de controle.

Além do atraso no cronograma, a fiscalização encontrou dificuldades relacionadas aos testes e à certificação do sistema. O TCU informou que 13 testes haviam sido reprovados e identificou problemas relacionados ao tempo de resposta do sistema e ao alcance dos receptores de sinal instalados na via. O caso chama atenção porque o APM foi concebido justamente para tornar mais rápida e eficiente a ligação entre o transporte ferroviário metropolitano e os terminais aeroportuários.

Por que o trem do aeroporto de Guarulhos está atrasado?

O APM foi planejado para fazer a ligação entre a Estação Aeroporto da Linha 13-Jade, operada pela CPTM, e os três terminais de passageiros do Aeroporto Internacional de Guarulhos. A proposta é permitir que o passageiro desembarque do trem metropolitano e consiga chegar aos terminais sem depender de ônibus ou outros meios de transporte para completar o deslocamento. O projeto foi incorporado ao contrato de concessão do aeroporto e passou a ser acompanhado pelo TCU por causa da importância da obra e dos riscos associados à sua implantação.

O prazo contratual original para a entrega do empreendimento terminou em fevereiro de 2024. Em uma fiscalização realizada em fevereiro de 2025, o TCU já havia constatado que a concessionária não havia entregue o empreendimento dentro do prazo previsto, embora as obras físicas estivessem praticamente concluídas, com cerca de 99% de execução naquele momento. O principal desafio passou a ser a conclusão da certificação, dos testes e da preparação para a operação regular do sistema.

A situação continuou sendo acompanhada em 2026 e mostrou que a conclusão física da estrutura não significava que o projeto estivesse pronto para funcionar plenamente. De acordo com o TCU, o APM estava operando de maneira assistida, com apenas um veículo em circulação, horários limitados e capacidade de aproximadamente 300 passageiros por hora em cada sentido. A autorização de segurança utilizada nesse período também era provisória, o que impedia considerar o sistema como plenamente certificado.

Outro problema identificado envolve a própria tecnologia utilizada para controlar a operação. O TCU apontou dificuldades relacionadas à complexidade do software de controle e falhas de comunicação entre o veículo e o Centro de Monitoramento Operacional. Essas ocorrências podem fazer o sistema entrar em modo de segurança, interrompendo a operação até que determinadas condições sejam verificadas e normalizadas.

Quais problemas foram encontrados nos testes do sistema?

A fiscalização do TCU identificou que uma parte importante do atraso está relacionada justamente à etapa de testes e certificação. Até a avaliação divulgada em maio de 2026, 13 testes haviam sido reprovados, principalmente por problemas envolvendo os tempos de resposta do sistema e o alcance dos receptores de sinal instalados ao longo da via. Esses componentes são fundamentais para que o sistema automatizado consiga operar de forma segura e coordenada.

O processo documental também apresentou um ritmo inferior ao esperado. Segundo o TCU, 90% dos documentos planejados haviam sido recebidos, mas apenas 70% desse conjunto tinha sido aprovado. O tribunal afirmou que o histórico de metas não cumpridas pela concessionária reduzia a confiabilidade das projeções apresentadas para o cronograma de conclusão. Por isso, a Corte manteve o acompanhamento do empreendimento e determinou novas providências relacionadas à fiscalização.

A operação experimental também apresentou outros desafios. O TCU registrou dificuldades relacionadas à comunicação entre os veículos e o centro responsável pelo monitoramento, além de ocorrências envolvendo equipamentos de drenagem durante períodos de chuva intensa. Segundo a fiscalização, esses episódios levantaram questionamentos sobre a capacidade de o sistema manter uma operação estável diante de determinadas condições.

O histórico do projeto mostra que os atrasos não começaram apenas depois do vencimento do prazo final. Em 2023, uma fiscalização anterior do TCU já havia identificado atraso estimado entre 10% e 15% no cronograma físico da obra. Naquele momento, a previsão era que a etapa final de comissionamento, testes e pré-operação fosse concluída em fevereiro de 2024.

O que pode acontecer com o projeto do aeroporto?

Diante da continuidade dos problemas, o TCU estabeleceu uma condição objetiva para a permanência do investimento no contrato de concessão. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) deverá acionar os mecanismos contratuais de exclusão do investimento caso o APM não esteja concluído, certificado e operando de acordo com as especificações técnicas até 30 de setembro de 2026. O tribunal determinou que não sejam admitidas novas prorrogações, salvo em situações de força maior.

A decisão também determina que a Anac encaminhe ao TCU um relatório sobre os processos administrativos relacionados ao descumprimento contratual da concessionária. O documento deverá detalhar as medidas adotadas e as providências em andamento para eventual aplicação de sanções. O objetivo é acompanhar não apenas a conclusão física do projeto, mas também o cumprimento das obrigações previstas no contrato.

Para os passageiros, a questão é especialmente relevante porque o APM foi pensado para resolver uma dificuldade prática: a distância entre a estação ferroviária e os terminais do aeroporto. Quando estiver funcionando plenamente, o sistema deverá permitir que quem chega pela Linha 13-Jade faça a conexão diretamente com os terminais de passageiros. Até lá, porém, a operação limitada significa que o viajante ainda precisa considerar as alternativas disponíveis para completar o trajeto dentro do complexo aeroportuário.

O caso também mostra uma diferença importante entre concluir uma obra física e colocar uma tecnologia automatizada em operação comercial. Mesmo com a infraestrutura praticamente pronta, o sistema depende de testes, certificações, software, comunicação entre equipamentos, protocolos de segurança e aprovação dos órgãos responsáveis. Por isso, a etapa final pode continuar representando um obstáculo mesmo quando a estrutura principal já está instalada.

O projeto do APM de Guarulhos entrou em uma fase decisiva em 2026. O prazo original terminou em fevereiro de 2024, enquanto o TCU continua identificando restrições técnicas e acompanhando o processo de certificação. A determinação de 30 de setembro estabelece agora um marco para definir se o investimento será concluído dentro das condições previstas ou se serão acionados mecanismos contratuais relacionados à sua exclusão.

Para quem utiliza a Linha 13-Jade ou viaja pelo Aeroporto de Guarulhos, o principal ponto é que a conexão ferroviária direta aos terminais ainda não alcançou a operação plena prevista originalmente. O andamento do projeto depende da resolução dos problemas técnicos, da aprovação da documentação e da certificação definitiva. Enquanto isso, o TCU mantém a fiscalização para acompanhar se as medidas determinadas serão efetivamente cumpridas.

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